domingo, dezembro 13

CARTA DO CANADÁ œ Algumas perguntas

œ Essas árvores de Natal de novos-ricos...

Fernanda Leitão

O ESPÍRITO DO NATAL


Nos países de raiz cristã fomos educados a celebrar o Natal como uma grande festa de memória milenar – a da vinda ao mundo do Messias, longamente esperado e desejado pela humanidade sofredora. E porque Jesus nasceu numa família pobre e num estábulo de acaso, porto de abrigo num mar de rejeição mercantil e egoísta, foi-nos ensinada a caridade em relação aos deserdados e a necessidade da Família como padrão social. Para nós outros, o Natal é a festa da família e o tempo de sermos bons. Chamou-se a esta conjugação festiva o espírito do Natal.
Parecia termos encontrado a fórmula da paz de espírito. Mas a inquietação subia em nós e as perguntas flagelavam a beatitude passiva em que nos puseram. Festa da famíia... Mas só da nossa? Porque não cabem na nossa mesa aqueles que Cristo garantiu serem nossos irmãos, os sem casa, os refugiados, os sem família directa, os desempregados, os que nos servem? Porque gastamos grandes somas em presentes para os nossos familiares e não nos sobra dinheiro para dar agasalhos e comida aos que nada têm? Decoramos as nossas ruas, casas, mesas, e nada fazemos pelos que não têm nada?
Países novos-ricos exibem gigantescas árvores de Natal, caríssimas e de consumo energético avassalador, e nós não perguntamos porque é que esse dinheiro não é utilizado numa celebração de Natal alargada aos que caíram no poço da carência? Jesus procurava os pobres, comia com eles, conversava com eles, de irmão para irmão, cheio de amor. Que Natal é o nosso, em nome de Cristo, se tanto o esquecemos, se não seguimos a regra de vida que ele nos deixou em herança? Que espírito do Natal é o nosso? Que mundo é este, tão feio, que construímos ao arrepio do Bem?
Se vivemos no estrangeiro, em países de religiões várias e de sistemas políticos conciliatórios, porque nos calamos perante a invasão do “politicamente correcto”, essa que quase exige que não se pronunciem as palavras Natal, Jesus e Maria, não vão os muçulmanos, os judeus, os hindus e os budistas franzir o sobrolho? Não é nosso dever celebrar os nossos valores religiosos sem constrangimento nem medo, com o sereno orgulho de quem é legítimo herdeiro do Messias? Mas fazemo-lo com coerência ou damos o flanco da contradição aos que nos pretendem anular? E, por acréscimo, frequentamos as celebrações dos nossos amigos de outras religiões com alegria, compreensão e respeito? Sentamo-los à nossa mesa de Natal, não como irmãos desavindos, mas como irmãos que vão a Deus por outros caminhos?
Estas são algumas perguntas do meu espírito de Natal.
Praza a Deus, leitor, que na noite santa as respostas desçam sobre a sua alma como um grande paz.
Santo Natal e muito feliz 2010!

sábado, novembro 21

A tripla violência sofrida pelas Mulheres Migrantes


O deputado Mendes Bota foi orador convidado na conferência organizada em Berna pelo Conselho da Europa, subordinada ao tema do “Combate à Violência Contra as Mulheres: o Programa de Acção da Suiça e do Conselho da Europa”, e que decorreu na sala das sessões plenárias do parlamento helvético.

Dirigindo-se a uma audiência composta por deputados, representantes oficiais do governo suíço e dirigentes de organizações não governamentais, Mendes Bota começou por dizer:

    “Provavelmente, muitos dos presentes não sabe quem foi a pessoa que dava pelo nome de Geeta Aulak. Até ler a imprensa portuguesa de ontem, eu também não sabia. Era uma mulher migrante no Reino Unido, pertencente à comunidade indiana da etnia “sikh”, que começou por ser vítima de um casamento forçado pela família. Tendo dois filhos e um marido que se recusava a trabalhar, era ela quem sustentava a casa. Com um casamento infeliz, ousou pedir o divórcio, e pagou essa ousadia com a vida, às mãos do marido, esfaqueada em plena rua, e com a mão direita decepada, sinal de desonra em nome de tradições ancestrais e religiosas.
    Para lá deste caso, há muitas outras mulheres migrantes, em solo europeu, que sofrem uma tripla violência. Primeiro, porque são mulheres, vítimas de cônjuges violentos. Depois, porque são migrantes, o que já confere um estatuto de discriminação. E finalmente, se são ilegais, têm receio de denunciar a sua situação às autoridades provocar um repatriamento de volta à miséria do país de origem.”
Mendes Bota deu conta dos trabalhos de uma comissão em que participa, na elaboração de uma proposta de texto para uma Convenção Europeia de Combate à Violência Contra as Mulheres Incluindo a Violência Doméstica, e que terá a sua terceira reunião no início de Dezembro, em Estrasburgo, e acrescentou:

    “É vital para este combate, a existência de um instrumento legal de nível internacional, que vincule os Estados membros signatários à transposição para a ordem jurídica interna de normas efectivas de protecção das vítimas, e de prevenção, combate e punição destes crimes, que constituem violações primárias dos Direitos Humanos. E não tenhamos dúvidas, basta ler os jornais todos dias, para constatarmos que são as mulheres quem constitui a esmagadora maioria das vítimas dos homicídios, das violações e de todo o género de violências. É verdadeiramente revoltante!”

quarta-feira, outubro 28

Subsídios para os consulados...

O Fundo para as Relações Internacionais (FRI), alimentado essencialmente com as receitas consulares, lá se vê coagido a publicar na folha oficial os subsídios que concede relativos a cada semestre. Os do primeiro semestre deste ano vieram à luz do dia a 23 de Setembro, no calor da campanha eleitoral. Mas vale a pena puxar à memória essa matéria.

De um total de € 981.521,60 em subsídios do FRI, apenas 39,92% foram destinados aos consulados honorários (€ 391.781,93), enquanto que para beneficiários selectivos da decisão política foram  589.739,67 € - nada mais, nada menos do que 60,08% daquele mesmo total, com os grandes bolos a serem destinados a organizações corporativas internas do próprio MNE.

Segue a lista dos subsídios para os consulados honorários. O caso não de se perguntar o que é que o consulado de Veneza faz com 250 €, ou o que pode fazer o de Winnipeg com 16 250 €. O que se pergunta é como se pode entender, face a esta lista, que quase meio milhão de euros sejam destinados à MUDIP - Associação Mutualista Diplomática Portuguesa, e que até 7.500 € sejam entregues à Associação dos Cônjuges dos Diplomatas Portugueses, mais do que o consulado em Gotemburgo recebe...

        St. Helier - 39 500 €
        Waterbury - 32 500 €
        Orense - 30 186 €
        Léon - 25 000 €
        Antuérpia - 24 800 €
        Winnipeg - 16 250 €
        Bilbau - 15 000 €
        Orleans - 15 000 €
        Rouen - 15 000 €
        Tours - 15 000 €
        Santos - 13 000 €
        Curaçau - 12 500 €
        Mindelo - 12 500 €
        Melbourne - 12 120 €
        Huelva - 12 000 €
        Perth - 10 500 €
        Los Angeles - 10 000 €
        Mbabane - 7 500 €
        Gotemburgo - 6 675 €
        Liege - 6 675 €
        Manaus - 6 310 €
        Belfast - 5 000 €
        Darwin - 3 750 €
        Casablanca - 3 000 €
        Kuala Lumpur - 2 995 €
        Singapura - 2 995 €
        Fortaleza - 2 887,50
        Assunção - 2 533,43
        Comodoro Rivadavia - 2 500 €
        Istambul - 2 495 €
        Dax - 2 250 €
        Quelimane - 2 245 €
        Santo Domingo - 1 995 €
        Brazzaville - 1 620 €
        Salamanca - 1 620 €
        Amã - 1 495 €
        Bangui - 1 300 €
        La Paz. - 1 200 €
        Adelaide - 1 190 €
        Munique - 1 070 €
        Porlamar (I.Margarita) - 1 000 €
        Houston - 850 €
        Goiânia - 750 €
        Maracaibo - 500 €
        Maracay - 500 €
        Niteroi - 500 €
        Port Elisabeth - 500 €
        San Cristobal - 500 €
        Welkon - 500 €
        Duque de Caxias - 400 €
        Panamá - 325 €
        Guayaquil - 300 €
        Cáceres - 250 €
        Génova - 250 €
        Londrina - 250 €
        Nápoles - 250 €
        Nova Friburgo - 250 €
        Porto Rico - 250 €
        Santa Cruz Tenerife - 250 €
        Trieste - 250 €
        Turim - 250 €
        Uberlândia - 250 €
        Veneza - 250 €
        Vitória do Espírito Santo – 250 €

terça-feira, outubro 27

António Braga continua, tudo leva a crer

Cada vez mais se afiança que António Braga continua com os assuntos da emigração.

Nasceu nos Açores, BI de Santarém, registado no consulado em Toronto

Pedofilia Trata-se do padre João Duarte, natural da Ribeira Grande, São Miguel. Está registado no consulado de Toronto e o último Bilhete de Identidade foi-lhe passado em Santarém, vá-se lá saber porquê. Foi o pároco de uma comunidade portuguesa a sul do Ontário por vários anos. De repente, pediu ao bispo licença para ir para serviço missionário. Foi para o Haiti, ficando à frente de dum recolhimento de crianças. E de repente, passou-se para a República Dominicana.

Agora, a Real Polícia Montada do Canadá prepara-se para ir buscá-lo à mesma República Dominicana e não será propriamente para ele receber protecção consular portuguesa... A lei canadiana é muito severa em relação aos pedófilos, mesmo os que cometeram o crime fora do país. Vai buscá-los onde estiverem (há dois ou três anos foram buscar um à Tailandia). E é prisão garantida para uns anos.

E o padre tinha tudo a ver com a imagem de Portugal, com portugueses, etc. Foi pároco numa comunidade portuguesa do sul do Ontário, era muito conhecido na comunidade. Gente de lá anda chocadíssima e revoltada.

E vamos ver se fica por aqui... Esse padre Duarte andava muito com um outro padre, um malandrão gay.

Mas, antes de tudo, ler o que é notícia aqui

Assuntos pendentes

Naturalmente que os assuntos da emigração estão pendentes. O nome de quem for o secretário de estado das Comunidades poderá dizer tudo. Aguardemos.

terça-feira, outubro 20

Eleito a contas com a justiça alemã?

Do chanceler Rapozo Thelles de Sampayo e Limalha:


A mal escrita croniqueta do DN do passado sábado, tentando transformar transformar António Braga num peso pesado à custa da leveza dos resultados nos círculos da emigração, é tão desprovida de alicerces que se não entende se será uma chapelada ou publicidade paga. Senão vejamos:
  1. Os cada vez mais elevados graus de abstenção não permitem quaisquer conclusões dignas de nota, excepto a confirmação de que o sistema eleitoral no estrangeiro está falido;
  2. Em 1999 o PS conquistou os 2 lugares pela Europa, em 2005 ficou a uma mão cheia de votos de o conseguir novamente, desta vez a distância para o 2.º lugar é clara;
  3. A lista do PS de 2005 era pior, já que era liderada pela extra-terrestre Maria Carrilho, a deste ano promoveu o então n.º 2 a lider e a 1.ª suplente, uma activista sindical nos serviços externos do MNE, a n.º 2;
  4. Em compensação, a lista do PSD era pior, já que se apresentou com um n.º 2 a contas com a justiça alemã;
  5. As referências à reestruturação consular na Europa são fraquinhas, já que na Alemanha não foi encerrado nenhum serviço e na Suíça até foi criado mais um, esquecendo o 2.º país mais atingido, a Espanha;
  6. Em 1999 o PS conquistou pela 1.ª e única vez um lugar fora da Europa, tendo agora resultados comparativamente miseráveis, devendo ter-se presente que a reestruturação também chegou ao Brasil, com a substituição do consulado em Santos por um honorário e a criação de um vice-consulado de praia em Fortaleza, assim como aos EUA, cujo saldo é a criação de um serviço consular em Orlando de apoio ao Disney World...
Assim, não se vislumbram razões para tanto deslumbramento com resultados exíguos, com diferenças desvantajosas para o PS, na comparação com os resultados de 2005, e cujo produto final representam a manutenção do status quo...

segunda-feira, outubro 19

Blog consular de Toronto

Na verdade, há continente e conteúdo. Quanto ao continente, que excelente iniciativa a do cônsul-geral de Toronto, Júlio Vilela, ao criar o blog público Consulado Geral de Portugal em Toronto. Quanto ao conteúdo, o tempo dirá.

Este blogue

Até agora, este blogue - modesta extensão de Notas Verbais - tem-se intitulado Comunidades Portuguesas embora os botões de ligação da página principal lhe chamem Emigração. Alguma confusão, portanto. Vamos tornar as coisas mais simples, agora que esta página vai ter novo fôlego, mantendo-se o objectivo inicial que não é o de reportar matéria da emigração, mas sim matéria relativa a como em Lisboa se vê a emigração e se decide para a emigração. Na emigração e sobre a própria emigração,há muito e bom, como se pode verificar nas páginas sinalizadas na coluna à direita.

Que interpretação

(Clique sobre o recorte para ampliar)


Não passou ao lado o texto que o DN publicou sábado (17), sobre os resultados das legislativas na emigração. Por isso mesmo o texto aqui está ao lado.

Façam o favor de ler. Quem ler isto fica dispensado de ler Pisco.

domingo, dezembro 7

Comentários passam a ser moderados

    Lamentamos, mas os comentários passsam a ser moderados. Os leitores podem e devem expressar as suas opiniões, contrariando posições desta página ou de eventuais colaboradores ou aprofundando ideias, caso assim entendam, mas o que não podem nem devem é servir-se deste meio para caluniar e ferir a honra pessoal seja de quem for, designadamente servindo-se do anonimato.

sábado, dezembro 6

Problema de comunicação

    É claro que Paulo Pisco apenas espingardeia assim porque a secretaria de estado (como o MNE, em geral) tem um grave problema de comunicação. Mas nunca se sabe se Paulo Pisco alguma vez compreenderá o que significa um grave problema de comunicação, porque para ele (já a propósito de Paris se viu) fazer política é espingardear, o que fica muito mal num responsável partidário.

Uma cidadã suscitou, o PSD questionou, a obra de Paulo Pisco nasce

Outra de Paulo Pisco. Mas o que é o «sentido de estado» para Paulo Pisco? Este que revela? Responde pela secretaria de estado? Fala pela embaixada em Nova Deli? Pelo consulado-geral em Goa? Antecipa-se? Quer mostrar bons serviços à causa?
A notícia é esta:

    "O PS considera lamentável a falta de sentido de Estado e a irresponsabilidade dos deputados do PSD eleitos pelos círculos da Emigração, que não hesitam em utilizar de forma abusiva e exagerada declarações de uma cidadã portuguesa para os seus fins partidários", afirma o Partido Socialista em comunicado.

    No requerimento, o PSD dá o exemplo de uma cidadã nacional que estava em Bombaim e que, ao pedir auxílio à Embaixada de Portugal em Nova Deli, "não obteve qualquer resposta satisfatória". À cidadã "apenas foi indicado que deveria contactar o Consulado em Goa", onde lhe foi dito que "teria de ser ela própria a tratar do seu regresso com as agências de viagens [pelos seus próprios meios]", lamentam os deputados José Cesário, Carlos Gonçalves e Carlos Páscoa Gonçalves.

    No comunicado, o PS afirma que os deputados social-democratas "não têm nenhuma autoridade moral para fazerem acusações de fragilidades na protecção consular, porquanto o Governo accionou todos os mecanismos para garantir a identificação e protecção dos cidadãos nacionais".

    "Nunca o PSD nem os dois deputados pelas Comunidades que tiveram responsabilidades governativas (José Cesário e Carlos Gonçalves) alguma vez se lembraram de criar uma estrutura semelhante" ao Gabinete de Emergência Consular criado por este Governo, criticou o PS.

    Além da criação do Gabinete de Emergência Consular, o comunicado do PS, assinado pelo Director do Departamento Internacional e de Comunidades, Paulo Pisco, sublinha que o Governo acaba de lançar o Registo das Viagens, que "constitui um importante reforço para a segurança dos portugueses que viajam para o estrangeiro". O PS refere-se ainda à crise vivida recentemente na Tailândia para dizer que o Governo "tinha pronto a utilizar um avião para ir buscar os portugueses retidos em Banguecoque"

sábado, novembro 29

Perante isto, não pode haver omissão

    Pelo que Federação das Associações Portuguesas na Alemanha descreve, naturalmente que alguma explicação tem que se dada, quanto a factos. Mesmo que não haja argumentos. Paulo Pisco sai mal desta.

    Ler → Aqui

sexta-feira, novembro 28

Fórum Empresários, sim senhor. Mas a prova é no terreno

PRIMEIRO, VENHAM AS CONCLUSÕES O Fórum Mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas, que se anuncia com o número ordinal romano de I, para que haja um II, um III, por aí fora, abre portas no Centro Cultural de Belém, portanto em ambiente de primeiro mundo. Oxalá que assim venha a acontecer aquele II, III e por aí fora, e que a reunião do CCB não deixe a imagem de ser mais uma a esboroar-se no turismo e em palavras sem consequência prática, eficácia evidente e proveito geral, porque de empresários de trata.

Solenidade não falta e o instrumento para que se faça a prova real disso tudo (ou a dos nove, que basta) também não falta. Referimo-nos ao programa NETINVEST, em que se trabalha vai para três anos e descrito como uma iniciativa de apoio ao investimento em Portugal por parte dos empresários das comunidades portuguesas no mundo, programa esse que vai ser apresentado no fórum. Se este programa para o qual, para além da envolvência do MNE e do Ministério da Economia, se espera concitar o interesse e parceria de câmaras de comércio, associações empresariais, bancos e municípios, se este programa não resultar, então será difícil imaginar qualquer outro programa que dê os noves-fora-zero.

A meta, bandeira ou lema - Uma Rede para a Economia Global - é coisa ambiciosa face ao ramerrame em que ao longo de anos a emigração se tem arrastado, apesar dos pespontos de excepção que têm sido os «empresários de sucesso».

Não é difícil imaginar ou supor-se o que Manuel Pinho irá dizer e conclamar, o que Nelson Souza (gestor do QREN) irá descrever, o que Basílio Horta (AICEP) tentará comprovar, o que André Março (IAPMEI) irá retocar, e sobretudo o que a embaixadora Margarida Figueiredo irá fazer passar quando chegar a sua vez de falar do papel da rede diplomática e consular como diplomacia económica activa. Isso sabe-se.

A prova dos nove ou a prova real, faz-se no terreno. Para já, aguardemos as conclusões, e, depois, haverá que seguir criticamente os dias até ao II Fórum. Estamos aqui para isso.

segunda-feira, novembro 24

CARTA DO CANADÁ œSorte

œ Recordam-se da Caixa Económica Faialense?


Fernanda Leitão

TIVERAM SORTE

Em pouco mais de vinte anos, barões do PSD, quase todos passados pelos governos, envolveram-se em dois escândalos bancários de contornos sinistros.

Nos dias que correm, está a contas com a Justiça a equipa dirigente do BPN. Foi preso o seu homem forte, estrategicamente afastado do banco e divorciado da mulher com quem estava casado há 42 anos, para melhor garantir a posse dos bens adquiridos, enquanto um outro ex-governante apareceu a fazer a rábula do menino de coro em entrevistas várias. Ao mesmo tempo, no programa televisivo PRÓS E CONTRAS, apareceram homens que parecem dispostos a partir a loiça toda, o que, a ser verdade, vai levar mais gente às prisões. Temos folhetim garantido para uns meses.

Para já, já duas constações positivas: a Procuradoria Geral da República funcionou em pleno e o governo foi rápido a salvar os depositantes ao nacionalizar o banco.

Infelizmente, não foi o que aconteceu há vinte e tal anos quando faliu de forma fraudulenta a Caixa Económica Faialense. Largos milhares de depositantes, na sua maior parte residentes no estrangeiro, isto é, emigrantes, ficaram sem as suas economias. Houve casos em que ficaram reduzidos à miséria. Houve um suicídio e houve um emigrante que, no auge do desespero, matou o director de uma filial do banco na América do Norte, o que lhe valeu uns anos de prisão e viver depois uns anos na mais completa carência.

O caso arrastou-se pelos tribunais, os emigrantes manifestaram-se em Lisboa e foram mandados espancar pelo governo social democrata da época, os emigrantes quiseram falar com a então secretária de estado das Comunidades e não foram recebidos, os ex-governantes envolvidos, de quem na emigração se dizia à boca cheia que tinham atravessado fronteiras, mais de uma vez, com malas cheias de dinheiro, foram absolvidos. A única prisão foi a do jornalista Aníbal Mendonça que, por denunciar a bandalheira, esteve mais de um ano nos calabouços da Penitenciária sem ser ouvido nem julgado. Só tarde e mal, depois de farta pancadaria na TV e em alguns jornais, acabou por ser julgado e preso, depois de ter tido tempo de sobra para pôr a salvo o que roubou, o chamado presidente daquela vergonha, um antigo açougueiro que, pelos vistos, bom compagnon de route foi para dois ex-ministros e um ex-presidente da RTP. Ficou de tudo isto a lembrança amarga de uma demissão imoral do governo e da justiça.

Tiveram sorte os depositantes do BPN e o povo em geral, esse que, com o suor do rosto, deposita as suas economias nos bancos. E que, por naturais razôes de moral básica, se acha no direito de ver respeitado o seu dinheiro. Ainda bem que, desta vez, foi assim. Para mim, que nunca tive a ver com partidos, tanto se me dá que o respeito venha do governante Zé ou do governante Manel, questão é que venha. E é isso que registo.

Dinheiro do povo é coisa séria. Uma das maiores nódoas do comunismo foi o facto de os comunistas espanhóis terem transferido o ouro depositado em bancos de Espanha para a União Soviética, e os dirigentes desta, com Estaline à cabeça, lhe terem chamado um figo. Os comunistas espanhóis perderam a guerra civil nessa hora, e para sempre, mas só tarde e mal o perceberam. Se é que perceberam, porque parecem duros de entendimento, a avaliar pelo que ouvimos aos cá de casa...

domingo, novembro 16

Honorário, com honra

    MERECIDO João Lupi, docente da Universidade Federal de Santa Catarina e cônsul honorário de em Florianópolis, recebeu, esta semana, as insígnias da Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, que lhe foram entregues pelo embaixador Francisco Seixas da Costa, em acto que decorreu naquela cidade. João Lupi foi a personalidade portuguesa no Brasil distinguida pelo Presidente da República, sob proposta do Governo, por ocasião do Dia de Portugal.

sexta-feira, novembro 14

Passatempo. A verdade não está longe

    Dos quilómetros de prosa que dos consulados-gerais e postos consulares de carreira chega às Necessidades, muito pouco, pouco é aproveitável. Alguns postos até fazem dar a ideia de que são um passatempo. E alguns cônsules que trabalham a sério e não vão no passatempo, chegam a ser penalizados por isso mesmo - por trabalharem a sério. «Queres ser promovido? Então não faças nada» - é o conselho que alguns conselheiros, escaldados, transmitem. E a verdade não anda longe disso.

A segurança dos portugueses no estrangeiro

LEVE-SE A PRIORIDADE A SÉRIO Sempre que, por este ou aquele motivo, há azar, seja na Venezuela, na África do Sul ou no Brasil, de imediato se declara nas Necessidades que a segurança do portugueses no estrangeiro é uma prioridade. E enquanto o azar mora em dois ou três jornais ou em alguma televisão ávida de emoções fortes, repete-se a prioridade. Mas, resolvido o azar ou esmorecido o aproveitamento do azar, a prioridade também esmorece, regressando o gabinete de emergência aos dias sem azar e sem prioridade.

Ora, aquilo que se faz bem, se não foi feito por iniciativa ou originalidade de quem declara tal prioridade, pode e deve ser imitado. É o caso da iniciativa do Quai d’Orsay que repete agora pela terceira vez desde 2005, envolvendo mais de uma centena de agentes ou actores públicos e privados confrontados ou que eventualmente se podem confrontar com a segurança dos franceses em zonas de risco.

Portugal que as suas comunidades do estrangeiro mais ou menos organizadas e com os actores ou agentes perfeitamente identificados, pode e deve imitar a iniciativa francesa, com todas as vantagens. Até porque, para o OE, fica mais caro remediar do que prevenir, havendo casos em que o estado despende verba apreciável para segurança que deveria regressar a casa, conclusão a que não seria difícil chegar se tal segurança fosse minimamente vigiada e escrutinada.

quinta-feira, novembro 13

Blogs de emigrados e de emigrantes...

    Na coluna da direita, estão colocadas, a partir de agora, duas listas de blogs - uma lista com blogs do Círculo da Europa e outra para os do Círculo Fora da Europa. A ordem das listas segue o critério da actualização dos blogs, surgindo o blog com texto mais recente à cabeça.

    Não estão nem poderão estar alguma vez todos, mas alguns mais irão sendo acrescentados (ou retirados, caso ocorra paragem ou prolongada inactividade).

    Quanto aos critérios de selecção, estes são apenas os da qualidade geral dos textos e do exercício crítico, relativizando-se a questão de se concordar ou não com o que os autores propõem.

terça-feira, novembro 11

Conselho das Comunidades. Muito se tarda

Preso por impugnação da eleição do Conselho Permanente, muito se tarda o esclarecimento da situação em que este órgão se encontra. Nem a justiça ata, nem a política desata. Para já, foi já um mau começo, e o presidente eleito não tem dado grande ajuda para que evite um mau acabar, independentemente da decisão. Um órgão consultivo que não se consulta a si mesmo, passa um mês e é como se fosse um faz de conta, nem a justiça nem a política o salva do descrédito.

Jornais e blogs da emigração

    Oportunamente, colocaremos na coluna à direita, ligações para os jornais da emigração e também alertas para os blogues das Comunidades Portuguesas. Pouco a pouco, porque, tal como nas passagens de nível, há que parar, ver e escutar.

SEM EMOLUMENTOS 1 ß Nota

    Projecto de há muito, esta página apenas a partir de agora pode ir tomando forma. Não se trata de uma página das Comunidades ou para as Comunidades, mas apenas sobre as Comunidades ou, mais precisamente, sobre a política destinada às Comunidades Portuguesas, das palavras aos actos, das intenções às práticas. Tal política tem nítido recorte na política externa portuguesa e, embora o termo não seja muito apropriado mas aceita-se, determina a inevitabilidade da diplomacia das Comunidades, que é o termo – implica diplomatas responsáveis pelas extensões externas do estado junto de um vasto número de portugueses que se não são metade estão lá perto do número dos residentes no país. Há pois, muito para tratar e que deve ser tratada e quantos mais forem os que disso tratarem, melhor. Se conseguirmos que esta página seja um pequeno esforço mas de continuado escrutínio da política para a emigração e da diplomacia das Comunidades, e com o registo ou atenção possível ao que nos chega das Comunidades, então e só então poderemos dizer que vale a pena. Vamos tentar sem receio de se alertar para o que parece estar mal, mas também sem pruridos em sublinhar o que sublinhar o que está bem ou parece bem. E entre o mal e o bem, é claro que haverá erros – apenas não erra quem tem medo de dizer a verdade ou o que se afigura como verdade a um espírito livre e independente.

    Portanto, depois do trabalho de casa, mãos à obra.

    Carlos Albino

sexta-feira, outubro 31

Cônsules honorários e currículos


QUESTÃO DE TRANSPARÊNCIA O ministro, ou o secretário de estado por competência delegada, despacha, o cônsul honorário é nomeado, a folha oficial publica, a pessoa toma posse perante o cônsul de quem depende ou, à falta deste, perante o chefe da diplomática, e o auto de posse é arquivado no MNE.

Nas redondezas do honorário, toda a gente ou a maior parte saberá quem ele é, o que faz, que interesses o movem, que ligação ou motivação por Portugal tem - se protestam, os protestos não chegam longe; se calam, consentem, como é a regra. Longe dessas redondezas, pouco interessará saber se é alto, magro, se fala espanhol ou mandarim sem saber português, se é Pierre, John ou Li-Fu, como também não haverá obsessão de ler a folha oficial à procura do honorário que possa vir hoje. Mas há regras, há deveres de informação pública, há uma justificação mínima a exigir de quem propõe, de quem nomeia, de quem despacha. E esse mínimo é que se diga, se descreva razoavelmente quem é o cônsul honorário, o que faz, o que leva à decisão de o nomear e onde para uma função de representação do estado. E isto não tem sido feito.

Os cônsules honorários surgem na folha oficial (e este é o local indicado para a sua fotografia curricular) como que anjos caídos do céu apenas com o nome e local de função nas asas, e a partir de então que todos acreditem que é um bom enviado. Por vezes, tantas vezes, verifica-se que bom enviado não foi, pelo que pela mesmo via chega a exoneração, voando com o nome nas asas e ficando as causas do afastamento arquivadas no mesmo sítio onde arquivado foi o auto de posse. É claro que, nunca se poderá descortinar, pelos secos dados da folha oficial, se o cônsul afinal é um sacerdote sem a canónica autorização para tal e se o digno endereço do consulado masi não será que a sacristia. Como já aconteceu, não passando isso de caso caricato.

Esperava-se que António Braga rompesse com essa tradição de se omitir quem é o cônsul e onde rigorosamente «funciona» o consulado, portanto, onde é hasteada a bandeira portuguesa e colocada a placa da República. Até agora António Braga não o fez, prosseguindo a tradição da omissão. Omite-se o mau, como também se omite o bom, ou mesmo o ó(p)timo - como no caso da foto, o consulado honorário em Botucatu, no distrito consular de São Paulo.

Quanto mais não seja para que a memória da folha oficial não fique curta e a do arquivo do MNE demasiado comprida, é aceitável que esse menosprezível dever de informação pública por parte do estado, torne exigível a divulgação mínima dos fundamentos pelos quais se nomeia um dado cônsul honorário e os seus dados curriculares com relação directa e útil para tal função.

quarta-feira, outubro 29

Recomeça-se, após dois anos

    Esta página, a aguardar melhores dias desde Novembro de 2006, vai agora ser retomada como página suplementar agregada a Notas Verbais. Naturalmente que consideramos como muito positivo que, entretanto, tenha surgido inúmeros págimas e blogs da Emigração, a juntarem-se ao crescente registo de jornais digitais, uns daqui, outros dali, e que no conjunto comprovam o interesse denodado pelo debate crítico de políticas e pelo escrutínio da actividade do estado e de seus agentes destacados para junto das comunidades - não deixa de ser uma forma de participação cívica, ou melhor, é mesmo. Juntamo-nos a esse esforço.

segunda-feira, novembro 27

Crónica do Canadá. Refugiados portugueses em Toronto? Oh Senhor Eustáquio!

Fernanda Leitão, que apenas com palavras sabe fazer contas como poucos com números, diz e com razão: «Tudo somado, lideranças destas envergonham a comunidade portuguesa e afastam dela, cada vez mais, os jovens que já perceberam a importância do conhecimento e da cultura». Leiam do princípio ao fim porque «é de cabo de esquadra!»



A PAU COM A ESCRITA

Fernanda Leitão

Lê-se e não se acredita. O presidente da ACAPO (organismo que congrega clubes e associações portuguesas do Ontário), da maneira rude que se lhe conhece, manifestou por escrito a sua indignação pelo facto de a embaixada de Portugal em Otava não ter informado a associação a que preside da presença na capital federal, para conversações com o governo canadiano, de António Guterres antigo primeiro ministro de Portugal e actual Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. E porque estava o homenzinho indignado? Porque, em seu douto entender, Guterres devia ter vindo a Toronto resolver o problema dos "refugiados portugueses". Esta é de cabo de esquadra!

Para o caso de o Sr. Eustáquio não saber, sempre adiantamos que refugiados, segundo a letra de lei da ONU, são aqueles que têm de fugir do seu país devido a guerras, genocídios, perseguições políticas com o objectivo concreto de eliminação física dos oponentes aos governos locais, fomes e situações de calamidade em geral. O Sr. António Guterres é o enviado da ONU para países tão aflitos como a Palestina, o Iraque, o Uganda, o Congo dito democrático, o Ruanda, a Somália, a Etiópia, para só citarmos estes. Aparece muitas vezes nas televisões e jornais acompanhando no terreno situações de tragédia, toda a gente vê. Ora, como todos sabemos, os ilegais portugueses que receberam ordem de deportação do Canadá vieram para este país sem outro objectivo que não fosse melhorar a sua situação económica. O seu estatuto de refugiado foi forjado, com a mira de ganhar uma pipa de massa sem fazer nenhum, por alguns advogados e alguns conselheiros de imigração que nada devem à honestidade e à competência.

Aproveitamos para explicar a este dirigente comunitário que ANALFABETISMO é a condição de não saber ler nem escrever, e que ILITERACIA é saber ler e escrever, mas não entender o que lê nem o que ouve. A ignorância rege estes dois estados e até se chama a estes últimos "analfabetos funcionais".

Dirá quem lê este comentário que, coitado do rapaz, não tem culpa, não nasceu ensinado. Eu esclareço que ninguém nasce ensinado e é por isso que existem escolas. E acrescento que o Canadá é bem generoso ao dar escola a todas as pessoas. Só não aprende quem não quer.

Tudo somado, lideranças destas envergonham a comunidade portuguesa e afastam dela, cada vez mais, os jovens que já perceberam a importância do conhecimento e da cultura.

sexta-feira, novembro 17

Por acaso. LusoJornal/França

Sempre em função de alguma notícia, algum reparo ou alguma inciativa, Comunidades Portuguesas passam a destacar jornais editados na emigração ou para a emigração. Para iniciar a rotina, o LusoJornal editado na França.

Primeira página do LusoJornal (França), 16 de Novembro, clique em cima da imagem para ampliar


Editado por Aniki Communications, Direcção de Carlos Pereira, o LusoJornal (edição impressa) sai às quintas-feiras, é gratuito, encontra-se nos locais habituais de passagem dos portugueses, mas pode ser recebido em casa (só em França) com pagamento das despesas de correio. O LusoJornal tem duas versões na net (França e Bélgica) e a edição semanal pode ser descarregada em formato pdf.

quinta-feira, novembro 16

Polacos, Portugueses e Sul-africanos. As três presas fáceis da Holanda

É de abrir a página da Level One South para se constatar como as agências de trabalho temporário recrutam e que nacionalidades de origem preferem:

"Personeel of zelfs een structurele onderbezetting"
Poolse, Portugese en Zuid-Afrikaanse medewerkers

Trocando por miúdos - recrutam Polacos, Portugueses e Sul-africanos. E de mais nenhuma nacionalidade porque as presas fáceis são essas. Não empolam.

O caso da Holanda. Evitável. Portugueses infelizmente são notícia.

Erro dispendioso. O caso dos portugueses sobre ao noticiário quotidiano holandês, repercutido por jornais, rádios e televisões. Não a notícia mas a situação era evitável. Outro erro herdado dos tempos de Freitas do Amaral. Para nada serviu a audição parlamentar sobre a extinção do cargo de conselheiro social na Holanda. Aqui se reproduz, por exemplo, a primeira página do Dagblad de Limburger.


Não pelos portugueses, mas pelo que lhes aconteceu e deles fizeram, a notícia é desconfortável. Sobretudo depois de meses e meses, consulado, embaixada e Lisboa terem sido alertados e confrontados com situações desta natureza. O que custará ao Consulado-geral em Roterdão criar um número telefónico de emergência para atendimento permanente? Nem que seja uma SMS!

segunda-feira, novembro 13

Em Bruxelas, por exemplo… Nos conselhos comunais

Português, nem um! “Metade dos conselheiros comunais já são magrebinos e turcos e onde não existe um único português.”
Magrebinos, turcos com estatégia eficaz e hábil

Português, nem um!

É o que nos diz “J. d'Egmont”:

Diferenças. ”Um outro aspecto flagrante destes contrastes e comparações significativas e que revelam a falência da nossa politica de apoio aos emigrantes, reside no facto de, por exemplo, os imigrantes magrebinos e turcos nos países da UE, devido a uma estratégia eficaz e hábil por parte das autoridades dos seus respectivos países de origem, terem hoje posições de poder significativas e influentes ao nível politico e do aparelho de Estado nos países de acolhimento, enquanto que a influência dos imigrantes portugueses a esse nível é simplesmente nula - ver por exemplo a situação actual dos conselhos comunais de Bruxelas onde metade dos conselheiros já são magrebinos e turcos e onde não existe um único português!

J. d'Egmont

sexta-feira, novembro 3

Consulado-geral em São Paulo. Emolumentos acima da tabela?

Resposta sindical ao cônsul Barreira de Sousa. Fica-se a saber que aos utentes «aos quais se negava a entrada no Consulado (parece que posteriormente deixou de ser assim...), excepto quando convocados, e o acesso ao livro de reclamações» é~hes «ainda imposta uma tramitação única, com custos e despesas escandalosamente elevados, sem qualquer conexão com a tabela de emolumentos consulares». É caso.


Do STCDE ao cônsul Luís Barreira de Sousa

Resposta à letra
tipo canivete suíço


A propósito do comunicado do Cônsul Geral em S. Paulo, como esperava. Texto na íntegra

"Dezasseis trabalhadores dos quadros do CGSP escreveram ao Senhor Ministro, com conhecimento a diversos Órgãos, Governantes e Dirigentes da Administração Pública, exprimindo o seu descontentamento e a revolta que sentem face à situação ali vivida nos últimos anos.

Em substância, os signatários vêm reclamar contra a falta de respeito e as humilhações a que estão sujeitos, a qual se estende aos utentes, aos quais se negava a entrada no Consulado (parece que posteriormente deixou de ser assim...), excepto quando convocados, e o acesso ao livro de reclamações, sendo-lhes ainda imposta uma tramitação única, com custos e despesas escandalosamente elevados, sem qualquer conexão com a tabela de emolumentos consulares.

A situação é velha de uns três anos, tem sido aflorada na comunicação social e objecto de várias intervenções públicas e junto de diversas entidades responsáveis, como está, aliás, documentado na página deste Sindicato.

Entendeu o Senhor Cônsul–Geral vir publicamente manifestar a sua indignação pelo conteúdo daquela exposição e, pretextando contrariar as acusações formuladas pelos trabalhadores autores da carta, recorre à linha de argumentação que sempre utilizou, acusando-os de serem o pequeno grupo de sócios deste sindicato que se vem exprimindo contra o fim das filas de espera, e contrapondo, não uma réplica aos problemas levantados, mas auto-suscitando as perguntas que entendeu – qual entrevista combinada -, cujas respostas constituem uma auto-avaliação elogiosa, concluindo pelas alta produtividade e qualidade do serviço prestado, que só por si justificariam a orientação seguida naquele serviço consular, pelo que aos procedimentos impostos aos utentes e à política de recursos humanos diz respeito.
Pelo caminho divide os trabalhadores em bons e maus, os que o servem e os críticos, deturpa a questão salarial e divide os utentes entre os propalados insatisfeitos – minoritários – e os genuinamente contentes – uma esmagadora maioria.

O Senhor Cônsul-Geral erra do princípio ao fim. Ora vejamos.

Diz que os 15 subscritores são os membros do sindicato, e contrapõe outros 15 administrativos, que são os bons, o que somaria 30 trabalhadores.
Ora os subscritores foram 16, nem todos sócios do sindicato, e houve sócios do sindicato que entenderam não subscrever, direito que muito bem assiste a uns e a outros.

Mas há aqui trabalhadores do CGSP a mais!

Dos registos do Ministério dos Negócios Estrangeiros consta que o CGSP tem 8 funcionários públicos, 11 trabalhadores com contrato individual de trabalho e 6 contratados a termo certo, o que soma 25. Aqueles 19 (8+11) são os trabalhadores dos quadros que os subscritores titularam como os “moradores”, designando de “visitas” os contratados a termo certo e, muito naturalmente, aqueles que pertencem a firmas que prestam serviços ao consulado – serviço telefónico, de limpeza e de segurança – serviços externalizados, portanto não do Estado.

Para ajuizar da legitimidade das designações, que até foram feitas entre aspas, convém ter presente que só os 19 integram quadros do MNE e estão afectados ao consulado, e que os “a termo” estão lá (artº 17º do DL n.º 444/99 de 3 de Novembro) em substituição temporária de pessoal, actividades sazonais, projectos não inscritos na actividade normal dos serviços ou devido a aumento excepcional e temporário da actividade. Nem mais, nem menos.

Pela forma como defende trabalhadores temporários e externos contra os funcionários vinculados ao Estado, percebe-se de que tipo de trabalhadores é que o Senhor CG gosta, apesar de ser, também ele, um funcionário vinculado ao Estado.

Argumenta o Senhor CG que os não reclamantes ganham muito menos e trabalham muito mais, sendo estes os que “mais contribuem para os níveis elevadíssimos de serviço”.

Vamos lá clarificar as coisas.

Os trabalhadores da central telefónica, da limpeza e da segurança hão-de ganhar aquilo que resulta dos seus contratos com os seus patrões, coisa que não é da nossa conta, embora devendo ter alguma conexão com aquilo que foi contratualizado entre o CG e as ditas firmas, pelo que acreditamos na informação do responsável do CGSP.

Mas os contratados a termo certo, que embora precários são trabalhadores do MNE, têm os seus salários rigorosamente equiparados aos colegas do quadro de contratação, em início de carreira (conforme resulta da negociação entre o DGA do MNE e este Sindicato), factualidade que nega a afirmação de “auferirem remunerações bem menores”.

Percebe-se que o Senhor Cônsul-Geral goste que estes trabalhem “mais de 10 horas por dia, e amiúde durante o fim de semana“, mas assinale-se que a Lei não prevê mais de 2 horas diárias de trabalho extraordinário e de 120 anuais. Aquilo que agrada ao Senhor Cônsul é um regime ilegal em prejuízo dos trabalhadores.

Entendeu o Senhor CG referir que os subscritores auferem 3130 USD líquidos de impostos.

Estivemos a olhar para as folhas de salários e vencimentos dos subscritores e concluímos que a conta ignora que os 11 contratados do quadro ainda estão sujeitos ao imposto brasileiro sobre rendimentos e que, muitos deles, não estão a descontar para a Segurança Social, já que os serviços do consulado, apesar de tão elogiada qualidade, não são capazes de regularizar a situação de modo a que os trabalhadores tenham as respectivas contrapartidas do INSS, apesar dos esforços e investimentos feitos pelos serviços do Ministério e pelo Embaixador António Franco.

Mas, se o Senhor CG diz que é “muito robusto” o vencimento de 3130 USD, como há-de classificar-se o facto de o próprio, além de ter um vencimento já superior àquela quantia, ter palacete, pessoal doméstico, motorista e carro do Estado, ainda receber uns 15.000 (sim, quinze mil dólares) em abonos, isentos de qualquer desconto?
Quanto aos níveis elevadíssimos de serviço do consulado, que o Senhor Cônsul tanto gosta de salientar, já não é a primeira vez que olhamos para os números e não vislumbramos porquê. Mais uma vez: peguemos no seu número de funcionários e no n.º de actos consulares oficialmente registados, que são o produto final da actividade consular administrativa, e comparemos 2005 com os de 2001, (antes desta miríade de serviços externos e do recurso sistemático à situação laboral precária).

Em 2001, com 23 trabalhadores, o CGSP produziu 44.159 actos.

Em 2005, com os tais 30, o CGSP produziu 46.357 actos.

Ou seja, o número de actos por trabalhador diminuiu de 1920 para 1545, o que significa que o produto final per capita diminuiu, em 4 anos, de 20%! Estamos entendidos?

Para que serviram mais de 600 chamadas telefónicas diárias? Qual a produtividade acrescida resultante da central telefónica?

No seu jogo de perguntas e respostas vem ainda o Sr. CGSP esclarecer que:

1. Informando qual é localização das câmaras os funcionários já não são filmados;

2. Correspondência privada que porventura chegue ao Consulado deixa de o ser, podendo ser violada;

3. Os trabalhadores não têm o direito a receber chamadas do exterior que venham pela central telefónica;

4. Os trabalhadores seriam os responsáveis pelo facto de nunca terem sido criados procedimentos no sentido de os Bilhetes de Identidade e os Passaportes serem enviados para casa dos cidadãos-utentes. Será que perguntou aos serviços centrais e aos seus antecessores porque assim era feito e estes o informaram que “nunca ninguém se preocupou em perguntar-lhes”? E que este ninguém são os subordinados? Será que daqui a um ano virá um Cônsul-Geral acusar-nos de ninguém ter perguntado aos utentes se preferiam levantar os documentos no CGPS?

Não Senhor Cônsul-Geral, os trabalhadores que se dirigiram ao Senhor Ministro, queixaram-se nos exactos termos em que se queixaram, não nos termos das questões que entendeu colocar a si próprio.

Tudo o mais é desviar as atenções para outros aspectos, mas nem mesmo assim nos parece haver muitas razões para estar contente.

Só numa coisa não podemos deixar de estar de acordo: o CGSP é agora muitíssimo mais dispendioso para o Estado do que anteriormente e os seus utentes pagam custos muito superiores aos de qualquer outro dos serviços consulares portugueses.

A Comissão Executiva do STCDE (2006/Nov/3)

terça-feira, outubro 31

Fenómenos de Entroncamentos. INATEL do Alentejo e Agricultura dos Açores

Estupefacção, é a palavra. Chegou o momento de vos dizer da nossa estupefacção ao saber-se que a Secretaria Regional da Agricultura, da Região Auónoma dos Açores, deu um subsídio de 100 mil euros a um clube de Angra do Heroísmo, por considerar que o clube está em deplorável situação financeira. Com que direito os dinheiros públicos são utilizados a favor de um clube, em detrimento de todos os outros, igualmente mal de finanças?


CARTA DO CANADÁ

Fernanda Leitão

O GRANDE REGABOFE

As comunidades portuguesas no estrangeiro sentem revolta, mágoa e vergonha, sempre que Portugal é apontado como um paraíso de corrupção e um triste exemplo de (absoluta) falta de respeito pelas instituições e valores nacionais de sempre. Em boa verdade, o natural prazer que sentimos ao ver programas de qualidade através da RTP é, muitas vezes, ensombrado pelo que os noticiários nos deixam saber.

A falta de respeito das pessoas pelas instituições, e destas pelo povo que as sustenta, dói de verdade. Porque sim e porque o respeito recíproco está na base de uma democracia saudável. Pensar e praticar o contrário é, justamente, igualar bandalheira à democracia, o que é injusto e perigoso.

Mas vamos a factos. O INATEL, herdeiro da FNAT salazarista, é uma instituição que tem prestado assinaláveis serviços no campo dos tempos livres dos trabalhadores. Sendo uma instituição, aos olhos dos portugueses ela é gerida segundo uma escala hierárquica de responsáveis. Assim sendo, poderá compreender-se facilmente o choque sentido em Toronto quando se soube que um delegado do INATEL, no Alentejo e Algarve, “nomeou” representante do dito INATEL para o Canadá a Casa do Alentejo, apenas porque foi convidado a estar presente numa semana cultural que o clube leva a efeito anualmente. Ninguém ficou chocado por ser escolhida a Casa do Alentejo e não outro clube, porque não é disso que se trata: o que está em causa é uma nomeação feita pelo primeiro funcionário que a representa numa festa. Sem protocolo nem aviso prévio, assim como um tiro à queima-roupa. Os emigrantes que são sócios do INATEL, que têm as quotas em dia, não gostam deste mau sinal dado de forma tão desastrada. O INATEL tem director ou é uma balda como o Instituto Camões, por exemplo?

Prossigamos. Ficou claro para os emigrantes que o corte no orçamento da Região Autónoma da Madeira se devia a um despesismo injustificado do mesmo, prática pelo menos tão antiga como as ameaças e insultos do responsável maior pela governação do território. Um dia essa prática tinha de acabar. Acabou, e muito bem, embora vários jornais protestem o contrário, sem que ninguém os leve a sério, pois é sempre ridículo defender interesses subterrâneos e bastardos.

Chegou o momento de vos dizer da nossa estupefacção ao saber-se que a Secretaria Regional da Agricultura, da Região Auónoma dos Açores, deu um subsídio de 100 mil euros a um clube de Angra do Heroísmo, por considerar que o clube está em deplorável situação financeira. Com que direito os dinheiros públicos são utilizados a favor de um clube, em detrimento de todos os outros, igualmente mal de finanças? Provavelmente, com o mesmo direito que tem autorizado governantes açoreanos a esbanjarem dinheiros públicos com a publicação de livros de péssima qualidade, verdadeiras caravanas de pândegos que têm ido aos Açores e ao estado brasileiro de Santa Catarina, onde reside uma centenária comunidade açoriana. Viagens, hotéis, restaurantes, tudo pago a glutões e glutonas, muitos deles da diáspora lusa, à custa dos impostos que os portugueses pagam. Esse direito descarado chama-se, em bom português, falta de respeito por quem paga impostos, pela imagem do país. Como se as Regiões Autónomas fossem um sobado.

Eu não alinho na crítica pela crítica ao trabalho do actual Primeiro Ministro. Tanto se me dá que ele seja socialista como outra coisa qualquer, porque ando há 32 anos a ver os golpes de rins e as tratantadas de TODOS os partidos. Penso que Sócrates tinha de tomar as medidas que tem tomado, que só pecam por tardias (e os anteriores governos que se limpem a este guardanapo). Penso, também, que é prova de patriotismo deixar que os eleitos governem sem rasteiras, punhaladas pelas costas, manifestações avulsas por todo o lado (tresandando a uns saudosistas do tempo em que o Muro de Berlim estava inteiro).

Em contrapartida, espero do Primeiro Ministro, não apenas que leve as reformas a bom porto, mas também que corte a direito nas questões orçamentais referentes às Regiões Autónomas e Autarquias. Sem excepções nem fraquezas partidárias. É o que, finalmente, desejam todos os emigrantes portugueses.

(Imagem - Menina com cão, 1986, Paula Rego. Pertença do Fundo de pintura do Ministério das Finanças)

quarta-feira, outubro 11

A instrutora. Que ora gosta ora não

Por exemplo: ... o caso da Universidade de Toronto, a funcionar há mais de 50 anos e que nunca formou um único aluno em português para poder exercer a profissão em condições, acrescendo que dali têm saído muitos alunos com um português a nivelar-se pelo bem pobre, o que incomoda quem ouve membros do xadrez político canadiano a exprimirem-se quando se dirigem a portugueses, e que por certo incomoda também quem assim fala e faz tão triste figura...


CARTA DO CANADÁ

Fernanda Leitão

LEGÍTIMAS DÚVIDAS

Recentemente, o Secretário de Estado das Comunidades, António Braga, confirmou publicamente que o ensino da língua portuguesa no estrangeiro deixa de ser tutelado pelo Ministério da Educação e passa a sê-lo pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, através do Instituto Camões. Esta decisão governamental, sem a consulta ampla e prévia que se impunha, pela importância do assunto e porque Portugal vive em democracia (embora às vezes não pareça), torna legítimas as muitas dúvidas que inundam as comunidades emigrantes, as perguntas que gostariam de ver respondidas para que o seu cepticismo não se torne irreparável, causticadas que estão de serem, apenas e só, fornecedoras de divisas e de votos. Penso que é tempo de abrirmos, também em público, a gaveta das dúvidas.

O ensino da língua portuguesa no estrangeiro tem duas vertentes claramente separadas: o ensino aos filhos dos emigrantes portugueses (com o ouvido habituado à língua portuguesa em casa e aprendendo as primeiras letras no país de acolhimento)e o ensino aos cidadãos estrangeiros que pretendem conhecer a língua de Camões (por vocação académica, por gosto cultural, por necessidades profissionais, etc.). Neste último caso, compreende-se que a dependência seja do Instituto Camões, teoricamente dirigido ao ensino universitário e às demandas culturais dos cidadãos dos outros países. Mas, no que respeita ao ensino do português básico, para crianças de ascendência lusa, é óbvio que tudo devia ser tutelado pelo Ministério da Educação, porque é este ministério quem emprega os professores, treinados para o serem, ao passo que o Instituto Camões se limita a mandar leitores de português para universidades estrangeiras, geralmente jovens licenciados por universidades portuguesas, que não raro são criticados nos jornais estudantis).

Aqui, e no que toca ao terreno que conheço, o Canadá, perfilam-se de imediato algumas dúvidas. O Instituto Camões paga os honorários dos leitores, admitidos por concursos (muito comentados com azedume por se considerarem balcões de amiguismo, cunhas e compadrio). Os leitores exercem as suas funções no departamento de línguas internacionais ou em departamentos onde a língua portuguesa vive o quotidiano com a língua espanhola). É o caso da Universidade de Toronto, a funcionar há mais de 50 anos e que nunca formou um único aluno em português para poder exercer a profissão em condições, acrescendo que dali têm saído muitos alunos com um português a nivelar-se pelo bem pobre, o que incomoda quem ouve membros do xadrez político canadiano a exprimirem-se quando se dirigem a portugueses, e que por certo incomoda também quem assim fala e faz tão triste figura. As universidades cobram propinas aos alunos que frequentam as classes de português. Temos, pois, que universidades canadianas, graças ao Instituto Camões, dispõem de leitores pagos por Portugal e ainda recebem as propinas dos estudantes que pretendem aprender a nossa língua. É um bom negócio. Mas tem permitido mais: que, em determinados concursos, “apareça” a instrutora de língua portuguesa, contratada e paga pela Universidade de Toronto, portanto completamente alheia ao aparelho estadual português, para manifestar se gosta ou não do candidato ou da candidata. Há casos, há testemunhos. Quanto aos leitores, aqui no terreno, são vigiados, com açaime e trela curta, pela mesma instrutora, que não permite autonomias nem opiniões divergentes. Marcação tão cerrada que, exceptuando poucos casos de pessoas acomodadas à bandalheira, os não acomodados sofreram perseguições e vexames de toda a ordem. Houve mesmo uma leitora que caíu numa depressão tal que teve de regressar a Portugal para se poder tratar.

No que ao ensino a crianças de famílias lusas, ainda no que ao Canadá se refere, nunca Portugal enviou para estas paragens professores pagos e contratados, como mandou para a Europa. O ensino é ministrado por escolas particulares e, também, por escolas canadianas ao abrigo do Heritage Program (um dos meios de afirmação do multiculturalismo). Este último divide-se em dois sectores: o Ensino Público e o Ensino Católico. Num e noutro dão aulas de português, muito poucas semanalmente, portugueses que se sentem habilitados para o fazer, o que nem sempre significa que o estejam. Houve, no Ensino Católico, uns directores portugueses que deixaram fama no modo como recrutavam professores, tal era o primarismo utilizado, e esse ensino passou por maus bocados porque sempre é verdade que não se podem enganar todos durante todo o tempo. Neste terreno, que é pago pelo Canadá, a única acção que Portugal pode tomar (deve tomar), em termos de diálogo construtivo com as autoridades escolares canadianas, é a abordagem feita pelo coordenador ou pelos diplomatas em representação do estado português. É de justiça apontar que, neste campo, muito tem feito a actual coordenadora, que é uma pessoa conhecida e respeitada no lado canadiano.

Quanto às escolas privadas, é toda uma novela. Em geral, um português com algum dinheiro recruta 2 ou 3 professores (muitos deles não o são, têm outras profissões, mas porque sabem um bocado mais de português, são candidatos a estas escolas). Depois, aluga salas numa escola canadiana, ou num clube português, vai ao consulado registar a escola e pedir o seu reconhecimento pelo Ministério da Educação.

Actualmente, mais concretamente de 1997 para cá, o reconhecimento obedece a regras emanadas da tutela que a coordenadora faz cumprir (antes disso, o reconhecimento era feito à trouxe-mouxe, no consulado, com muito compadrio pelo meio, e só assim se compreende que tenham sido autorizadas escolas que mais parecem a sala da Ti Faustina, nos anos 50, nas funduras do interior). Cada aluno paga um tanto por mês e é com essa receita que o director da escola paga aos professores, o aluguer das salas e o mais que é de regra. De Portugal não vem dinheiro, vêm livros de vez em quando, e também vêm políticos portugueses que dão beijinhos e prometem este mundo e o outro. De há anos para cá, o governo português conta os tempos de serviço destes professores para efeito de reforma (claro, tem havido tentativas de golpada por parte de uns paraquedistas) e proporciona cursos de reciclagem de vez em quando.

Estas escolas são, em geral, muito activas no tecido social comunitário, participando em exposições, paradas e outros acontecimentos. Há escolas destas um pouco por todo o Canadá, um país que vai do Atlântico ao Pacífico. Essas escolas têm sido visitadas anualmente e estão sempre acompanhadas on line, por telefone ou fax. Tem havido nelas verdadeiros missionários da língua portuguesa, autênticos mártires que deram vida e saúde por este sonho de não se perder a língua portuguesa (alguns deles, trabalhando para directores desonestos, nem os tempos de serviço contados correctamente tiveram), gente lusa de espinha direita que se sacrificou pela Pátria de todos nós. Mas tem havido também uma escória mercenária que, pasmem, tem cunhas em Lisboa e ameaça com isso...

Parece-nos evidente que, apesar de todos os pesares causados pelo Ministério da Educação, é a este que compete o ensino básico ministrado no estrangeiro. Pois se o Ministério dos Negócios Estrangeiros não tem sabido fazer do Instituto Camões uma instituição irrepreensível, como quer fazer-nos acreditar que vai saber dirigir o ensino da língua pátria às crianças de famílias lusas? Não se estará a pôr o carro à frente dos bois? Não teriam de limpar, primeiro, o Instituto Camões e só depois tomar decisões de fundo? Não teriam, primeiro, de obrigar o Ministério da Educação a cumprir os seus deveres com as escolas, e quem as serve, no estrangeiro? Não receiam os frutos desta decisão dentro de poucos anos?

Deviam recear.

terça-feira, julho 4

Aos franceses... como Santiago aos mouros

CARTA DO CANADÁ

Fernanda Leitão

SENTIMENTO DE PERTENCER

Começo por explicar que sou uma portuguesa à antiga, educada a não brincar com coisas sérias e para quem, por isso mesmo, Mãe é Mãe, Pai é Pai, Hino é Hino, Bandeira é Bandeira. Nasci numa antiga colónia portuguesa em que, desde as primeiras letras, cantávamos o hino e rezávamos o Pai Nosso antes de iniciar um dia de aulas, numa sala onde havia crucifixo na parede.

Posto isto, adianto duas coisas: o meu interesse pelo hóquei em patins e pelo futebol resumiu-se sempre à participação internacional de Portugal em competições. A outra coisa foi a amargura indizível quando verifiquei que, por ignorância ou medo de certas forças políticas estrangeiras, umas vermelhas e outras mais descoradas, que tentaram dominar o nosso país depois de 1974, ninguém exibia a bandeira nacional nem cantava o hino.

A minha geração foi sacrificada a uma ditadura de extrema direita, estreita de vistas, farisaica, injusta, que representou um atraso de 50 anos em todos os sectores por, entre outras coisas, ser a autora moral da “descolonização exemplar” que depois fizeram uns políticos enfeudados a interesses estrangeiros. Isso deu uma grande confusão nos espíritos de todos nós, o que foi aproveitado por uns que se julgam politicamente correctos para acusarem os patriotas e os crentes de coisas sujas que só poderiam ser imagináveis por mentes sujas caldeadas no cadinho de pactos germano-russos, em tempos de Hitler e Estaline. Tão bom um como o outro. O que sobrou intacto da minha geração não podia aceitar mais nenhuma ditadura, tivesse ela a cor que tivesse, e alegremente, sem complexos, continuou a acreditar em Fátima, a gostar de fado e de futebol, a comer sardinhas assadas e a beber vinho tinto, a prezar a amizade e a lealdade. É claro que de gente desta não podia saír ninguém que assobiasse ao hino ou pisasse a bandeira. O tempo encarregou-se de demonstrar quem eram os reaccionários e os inimigos da Pátria.

Vamos agora aos finalmente, como dizia o sinhôzinho Malta duma telenovela bréjeira.

Estou a 6 mil quilómetros de Portugal e prestando uma enorme atenção ao campeonato de futebol, a exemplo dos milhões de portugueses residentes no nosso país e espalhados por todo o mundo. Estou radiante com o desparrame de bandeiras portuguesas por todo o lado, com o hino cantado e recantado, até que a voz nos doa, por multidões que precisam de ver Portugal grande em alguma coisa perante o estrangeiro.

Perdido o Império, o futebol foi pretexto para nos irmanarmos no mesmo entusiasmo, de Lisboa a Dili – e há nesta simplicidade qualquer coisa das proféticas palavras de Agostinho da Silva, o banido por Salazar que, com sacrifício de uma vida inteira, foi um missionário da Língua Portuguesa por todo o mundo.

O Portugal-Inglaterra encheu-me as medidas. Ricardo à baliza, foi ali mais do que ele, foi a vontade de todos nós. Cristiano Ronaldo, o menino que beijou a bola como quem diz “tu não me falhes”, foi ali mais do que ele: foi a crença ingénua do povo que somos. O brasileiro Scolari, rubro de entusiasmo, quase dançando, foi mais do que um grande treinador, foi ali o fio invisível que une o mundo lusófono, esse que existe onde dois seres humanos se entendam em português.

Quando o jogo acabou liguei para um amigo de Angola, como eu, o Orlando, que vive na mesma cidade que eu. Respondeu-me com a voz embargada de quem chorava. Eu fui até ao lindo e castiço Mercado de São Lourenço, em frente da minha casa, para esvaziar a tensão. Era o 1 de Julho, Dia do Canadá, e o mercado estava apinhado de pessoas alegres e descontraídas, a comprarem e petiscarem. De repente, dei com os olhos num rapagão todo embrulhado numa bandeira portuguesa, com a cara pintada com as cores da bandeira, que berrava a plenos pulmões em inglês: “O meu Portugal ganhou”. E todos aqueles estrangeiros o felicitavam, lhe davam abraços e palmadas nas costas. Fui direita a ele e disse-lhe apenas: “Lá ganhámos”. O rapagão abraçou-se a mim com as lágrimas a saltar dos olhos. E eu quase chorei. Éramos dois desconhecidos que pertenciam a uma mesma Pátria, com um sentimento de pertença sem reticências a um destino comum.

Uma amiga minha perguntou-me: “E agora?”. Pois, agora que já não temos os estados de alma que pela certa teríamos jogando com o Brasil, vamo-nos aos franceses como Santiago ao mouros.

terça-feira, junho 20

E agora, no Ontário? A gota de água...

A gota que fez transbordar esta taça mal cheirosa de um sindicalismo mal entendido foi a quotização cobrada a trabalhadores da construção que aguardavam a sua legalização o Canadá.

RENDER DA GUARDA NA LOCAL 183

Aconteceu o que tinha de acontecer e há muito se esperava: a Direcção das Relações Laborais do Ontário (Ontario Labour Relations Board) concluíu, no passado dia 12 de Junho, haver justa causa para que a Local 183 ficasse sob "tutela administrativa", desta feita sob a responsabilidade de Timothy Armstrong, que foi chairman do Ontario Relations Board of Ontario e vice-ministro do trabalho do Ontário por alguns anos. Será assesorado por Rick Weiss, gerente regional e assistente da LIUNA para o centro leste do Canadá.

Chegou ao fim a administração liderada pelo todo poderoso António Dionísio e seu fiel escudeiro João Dias. A comissão administrativa já tomou posse e, como é regra em situações resultantes de longas lutas internas, segue-se um período de intensa fiscalização de documentos e actos administrativos da gerência passada. Muita tinta ainda correrá pelos jornais e a ver vamos se apenas correrá tinta.

A administração de António Dionísio e João Dias ficou marcada pela arrogância nova rica e pelo espalhafato com que brindavam órgãos de comunicação social com farta publicidade, o que lhes rendia uma promoção pessoal inusitada, além de despesas sumptuárias e descabidas, como aquele célebre passeio de helocóptero sobre Toronto e Nigara Falls a uma governante portuguesa e uma monstruosamente grande cesta de flores enviada pelo aniversário de uma pessoa ao serviço da diplomacia portuguesa. Para ficarmos só por aqui. Se Dionísio e Dias fossem donos de grandes fortunas pessoais, ninguém teria o direito de pedir contas dos seus gastos públicos, mas a verdade é que movimentavam a substancial massa financeira constituída pelas quotizações dos trabalhadores da construção civil. O sentimento de incómodo em relação a este estado de coisas, por parte da maioria dos trabalhadores e da comunidade em geral, foi ainda aumentado quando se começou a saber que pelo menos um dos dois administradores desejava ser membro do Senado do Canadá. Mais uma vez, para grande desconforto da comunidade, se verificava que um cargo dito de utilidade pública servia de trampolim aos que, com mais olhos que barriga, querem ser vereadores, conselheiros, deputados e ministros, à custa da boa fé do eleitorado. Estamos fartos de ver os saltos que dão trustees, sindicalistas, congressistas, tunistas (de tuna) e companhia, porque estamos saturados de fariseus que pintam e bordam sempre a gritarem que amam a comunidade e só estão ao serviço da comunidade.

A gota que fez transbordar esta taça mal cheirosa de um sindicalismo mal entendido foi a quotização cobrada a trabalhadores da construção que aguardavam a sua legalização no Canadá. Podendo trabalhar com uma licença temporária dada pela Imigração, nada, absolutamente nada podia garantir que ficariam imigrantes residentes. Portanto, estariam debaixo da ameaça de deportação. E assim sendo, brada aos céus que lhes tenham sido cobradas quotas pelo sindicato, sem garantia de devolução desse dinheiro caso recebessem ordem de saír do Canadá. Esta prática, despudorada e boçal, faz lembrar a de um tipo da comunidade, useiro e vezeiro em fazer peditórios, em nome de Deus e da caridade, para obras que nunca se fazem, de modo que esses dinheiros somem sempre, sem explicação nem restituição.

Dirão que a administração de Dionísio fez várias obras que beneficiaram os trabalhadores. É verdade. Mas isso, que era o dever dele, não pode justificar o clima de abuso que se engendrou. Os meios não justificam os fins. Seria imoral.

A Local 183 passa, agora, para uma nova fase de vida. Talvez para novas perturbações, só o tempo o dirá. Porque, quanto a nós, o que está errado é a filiação destes sindicatos em centrais americanas, tradicionalmente dominadas por interesses pouco ortodoxos. Seria bem melhor que os sindicatos canadianos fizessem parte da Organização Internacional do Trabalho - com a sua disciplina, a sua fiscalização, as suas sucessivas reciclagens, a sua saudável internacionalização.

F.L.

quarta-feira, maio 17

Sem comentários. Acção de promoção...

Para o 10 de Junho, em Toronto

Clique no documento, para ampliar e atingir esta «diplomacia consular»:

quinta-feira, abril 27

Cônsul em Roterdão e Embaixador em Haia. Comunicado nada confortável

Associações na Holanda pedem exoneração de Óscar Ribeiro

Pela importância, segue na íntegra um Comunicado de representantes dos emigrantes na Holanda (destaques de C-P):
«As Associações Portuguesas, a Federação Portuguesa na Holanda e a ainda a Secção Local do CCP, reunidos em Zaandam, vêm manifestar publicamente e muito em especial junto da comunidade portuguesa na Holanda, o seu desagrado e o seu desapontamento em relação ao tratamento que têm tido das autoridades locais portuguesas ( Embaixada e Consulado).

«Não é considerada de positiva a forma como têm sido ultimamente tratado o movimento associativo português pelas autoridades locais, conforme aconteceu recentemente com a marcação de uma reunião com as associações para as 15 horas da tarde, num dia semanal.

«Só quem não conhece a comunidade portuguesa e a vida dos voluntários dirigentes associativos, marca reuniões para impossibilitar que estas estejam presentes, sem dar uma alternativa, que seja no final do dia, conforme tem sido prática com outros Embaixadores e Cônsules.

«Os organismos da comunidade portuguesa e as suas associações não podem aceitar, que recentemente o senhor Embaixador de Portugal Júlio Mascarenhas, tenha considerado a comunidade portuguesa na Holanda, muito fraca, de pouca expressão e pouco integrada.

«Esta desconsideração deixa-nos a todos perplexos, vinda de alguém que deveria de ser mais responsável e após ter chegado à Holanda, não se dignou ainda ter o cuidado de conhecer melhor a comunidade e o seu movimento associativo.

«Estas afrontas e desrespeito à comunidade portuguesa na Holanda culmina com o facto do Consulado Geral de Portugal, não estar eficiente preparado para o apoio à comunidade portuguesa. A falta de apoio e as frequentes queixas, que nos são apresentadas pelos associados, são preocupantes e necessitam de obter resposta.

«Infelizmente estamos perante um Cônsul Geral que ignora todas as queixas apresentadas, e ainda afronta-se com as recomendações apresentadas.

«Perante esta situação os órgãos representativos da Comunidade Portuguesa na Holanda, e as associações presentes recomendam ao Governo Português a exoneração do Cônsul Geral em Roterdão Óscar Ribeiro Filipe.

«Os recentes problemas da comunidade de trabalhadores temporários portugueses continuam a preocupar os órgãos da comunidade. No seguimento do recente encontro realizado em Roterdão, as declarações de muitos trabalhadores, e uma reunião realizada na Embaixada de Portugal, com o membro do CCP, continua-se sem se saber quais a medidas que vão ser tomadas pelas autoridades locais portuguesas no sentido de apoiar os trabalhadores temporários.

«A recente exoneração da Conselheira Social Isabel Martins, deixa os membros da associações preocupados, com o que se vai passar futuramente.

«Os órgãos da comunidade continuam a exigir do Governo Português, a manutenção de um Conselheiro Social na Embaixada de Portugal em Haia, ainda exigem que muito urgentemente, seja colocado no Consulado Geral de Portugal em Roterdão, um Assistente Social para apoiar a comunidade de trabalhadores temporários na Holanda.

«Os organismos da comunidade Portuguesa na Holanda e as suas associações, exigem mais respeito pela comunidade portuguesa .

«No seguimento das perguntas parlamentares, apresentadas pela europdeputada Ilda Figueiredo do PCP, acerca dos assuntos da comunidade portuguesa na Holanda, constatamos com muito agrado que a Comissão Europeia, tenha reagido positivamente ás questões apresentadas.

«Sabemos que estas respostas não são a totalidade da resolução dos casos, no entanto deixam os órgãos da comunidade portuguesa na Holanda e as suas associações com vontade de continuar a lutar em prol da comunidade portuguesa.

«Manifestamos o nosso agradecimento à Eurodeputada Ilda Figueiredo, ao Eurodeputado Miguel Portas, pelo seu empenho e apoio ás questões da comunidade portuguesa na Holanda, ainda os nossos agradecimentos à Eurodeputada Ana Gomes e a Deputada Maria Carrilho pelo interesse manifestado pelos problemas dos trabalhadores temporários portugueses na Holanda e esperamos a continuar com a sua preciosa colaboração.

A Federação da Comunidade Portuguesa
A Secção Local do CCP na Holanda
As Associações Portuguesas na Holanda

Zaandam, Abril de 2006

quarta-feira, abril 26

Toronto, barulho português. Factos em notícias alargadas

Denúncias de má gestão, dinheiros mal parados, documentos falseados.

Uma manifestação de algumas dezenas de trabalhadores portugueses da construção civil, destinada a defender o presidente da secção 183 do sindicato, António Dionísio, fez um barulho de centenas, e foi discreta mas atentamente, enquadrada pela Polícia Montada em frente do parlamento da província do Ontário.

Durante a manhã do dia 25, os jornais nacionais trouxeram notícias alargadas sobre a acusação feita pela LIUNA (o sindicato norte-americano de que depende este sindicato canadiano) ao presidente António Dionísio e a João Dias, membros principais da direcção: má gestão, dinheiros mal parados, documentos falseados. As notícias referem a exigência de afastamento da direcção direcção. António Dionísio, levado em ombros pelos trabalhadores, proclamou com alta emoção o seu desacordo.

Posteriormente, um porta-voz da LIUNA, também português, fez declarações públicas apaziguadoras, garantindo que a nova direcção a vir não porá em causa os fundos de pensões e outros direitos dos trabalhadores filiados.

Dionísio, que foi condecorado pelo Estado Português e durante algum tempo representou o Partido Socialista português no Canadá, proporcionou uma ajuda financeira impressionante ao Partido Liberal por ocasião das últimas eleições federais, através de jantares organizados para angariação de fundos. Foi ele, também, que organizou há poucos dias uma manifestação em favor dos trabalhadores que estão ilegalmente no Canadá.

Aguardemos como isto vai acabar.

sábado, abril 22

Canadá/deportações. Nível da lama está a subir

«O conselheiro social que sobrou por estas paragens, técnico de questões ambientais, anda aos papéis no aeroporto de Toronto...»

CARTA DO CANADÁ

Fernanda Leitão

TAPAR O SOL COM A PENEIRA

Sucedem-se, na TV e na rádio, as comissões que, com mais barulho do que apoiantes, se dizem adeptas da manutenção dos ilegais portugueses no Canadá, aparentemente sem se lembrarem dos que já partiram. Mas as deportações continuam e, ao que diz o trocista jornal da caserna comunitária, o conselheiro social que sobrou por estas paragens, técnico de questões ambientais, anda aos papéis no aeroporto de Toronto porque o lado canadiano continua a não fornecer as listas antecipadamente. Aos papéis e com medo de abordar algum mal disposto, como já lhe aconteceu.

Sindicatos da construção organizam manifestações em frente da sede do governo provincial do Ontário, gritam-se palavras de ordem, agitam-se cartazes, berram-se cuspidos discursos, mas fica tudo como dantes e o quartel em Abrantes: os deportados portugueses continuam a sair, como foi prometido e se esperava. Não sei se a fraqueza desses sindicatos vem da contradição em que vivem. Um sindicato é uma instituição que tem por vocação única a defesa dos direitos dos trabalhadores, e quando o sindicalismo assim tem sido, move montanhas, como na Polónia, ou dobra governantes, como em França, granjeado o respeito até da Igreja Católica que os cita como desejáveis na sua Doutrina Social. Em Toronto, contudo, estes sindicatos da construção têm-se esmerado em jantares de angariação de fundos em favor de candidatos liberais nas eleições federais (o último, por ocasião da candidatura de Paul Martin, rendeu 700 mil dólares numa noite e isso deu uma bronca das antigas, que levou à alteração da lei reguladora das fontes de receita dos partidos). Em Toronto, onde a construção vive um boom impressionante, os sindicatos têm sido os maiores fornecedores de mão de obra aos empreiteiros, o que está na origem de uma dupla felicidade: o patronato pode dispor de mão de obra calada, que se sujeita a tudo, e os sindicatos, porque o operário tem uma licença de trabalho temporária, faz de todos eles sócios pagantes, com as quotas em dia. Quando é deportado, o trabalhador perde tudo nesta roleta. Os que não têm licença de trabalho e vivem clandestinos, dão com as costas à mesma na construção, mas ganham 7 dólares por hora, quando a lei manda pagar bastante mais de 20 dólares. Não sei se este sindicalismo, bronco e abrutalhado, se deverá ao facto de o Canadá não fazer parte da Organização Internacional do Trabalho. Mas porque vários dos seus dirigentes são militantes locais do Partido Socialista português, um deles até foi representante desse partido durante um tempo, fico surpreendida com esta ausência de reciclagem por parte do partido da Pátria Mãe, quanto mais não fosse para não ficar com má imagem no exterior.

A opinião pública canadiana, na sua maioria, manifesta uma sincera pena dos portugueses envolvidos nesta situação, mas começa a criticar, em voz cada vez mais audível, estes dirigentes portugueses que, objectivamente, exploram compatriotas e nada fizeram, no decorrer dos anos, para acabar com este aleijão. Cada vez mais se perguntam por que bulas os sindicatos estão sempre nas mãos de italianos, portugueses e sul americanos de língua espanhola, que dobram o joelho pelo partido liberal. A simpatia pode descambar em antipatia, a avaliar pelos comentários de outras comunidades étnicas atingidas também pelas deportações que não estão em espectáculo contínuo nem merecem tanto espaço mediático como os portugueses. Já, aqui e ali, se insinua que os grandes empresários estão nesta cruzada por interesses óbvios.

É verdade que o actual governo federal, minoritário e conservador, dirigido por Stephen Harper, um verdadeiro ursinho de pelouche nas mãos expeditas de Bush, não é flor que se cheire. Nem os canadianos têm boas recordações de governos conservadores, tanto em Otava como nas províncias, sobretudo no que respeita à imigração e à distância salutar que se deve manter com Washington. Mas este governo está em funções desde Fevereiro ou Março, já não me lembro bem, ao passo que os liberais estiveram no poder quase 14 anos seguidos. E com eles, portugueses que com eles trabalharam, designadamente o deputado Mário Silva que, com o seu português irremediavelmente trapahão, anda actualmente numa cruzada em que afirma estar a defender os deportados portugueses, mas na verdade a trabalhar para sua imagem política. Este escândalo da imigração ilegal dura há muitos anos, com o seu cortejo de conselheiros de imigração em que abundam os ineptos, os ignorantes e os desonestos, e também de alguns advogados, portugueses e doutras nacionalidades, que merecem amplamente os mesmos títulos. Os governos liberais tiveram tempo de sobra para resolver este assunto, para acabar com esta lama, mas não o fizeram nem os deputados, liberais ou da oposição, exigiram em sede própria a investigação criminal que já tarda, a intervenção da ordem dos Advogados (Law Society), o esclarecimento completo através da comunicação social. E porque não o fizeram? Por puro clientelismo eleitoral, por caça ao voto, por negociatas. Eles, e apenas eles, alimentaram este polvo que acaba por estrangular trabalhadores incautos.

Polvo de grandes dimensões e múltiplos tentáculos. Chegaram aqui famílias inteiras de portugueses, como turistas, que venderam tudo em Portugal, incluindo casa de habitação, ou que pediram milhares de contos emprestados para se meterem nesta aventura. Deixaram-se depois enredar por todo este polvo, regressam agora a Portugal em má situação. Uma decisão tão grave e de tão incertas consequências, foi por certo motivada pelos engajadores que, em Portugal, trabalham mano a mano com a fauna local. Nem se duvide. Por isso mesmo, são cada vez mais os portugueses que por aqui estão atentos à promessa de investigação criminal que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Prof. Freitas do Amaral, anunciou na sua conferência de imprensa no consulado português de Toronto. Todos esperamos que isso seja um facto, porque sim e para ver se o lado canadiano se anima por cá a fazer o mesmo e acaba esta conversa da treta de sindicalistas, deputados, congressos, federações, empresários e comandita. Embora Portugal não seja um alvo preferencial das deportações, pois ocupa o 7º lugar de uma lista iniciada pelos Estados Unidos (a fuga à guerra é um facto), a comunidade portuguesa precisa de ser limpa de alto a baixo. E o Canadá, nos seus partidos e departamento de Imigração, também.

quarta-feira, abril 19

Carta do Canadá. Olha bem para isto, Rosa!

Nunca se pode negar a verdade... a um símbolo.

CARTA DO CANADÁ

Fernanda Leitão

OLHA BEM PARA ISTO, ROSA!

Há muitos anos atrás, passei uma Páscoa com a Rosa Ramalho no seu pequeno lugarejo perto de São Martinho de Galegos, a um tiro de Barcelos. Cumpria, honradamente, uma promessa que a barrista me tinha arrancado a ferros, porque esse era um tempo de juventude, de jornais, de viagens, de agenda cheia. Ficámos amigas, já nem sei desde quando, e a verdade é que morríamos uma pela outra.

Dias fascinantes aqueles, com o Minho a explodir em verdes tenros e flores, o céu azul, o sol esplendoroso. O que nós vadiámos por aquele Minho, com a Rosa sempre a parar para abraçar pessoas, de todas as camadas sociais, que lhe queriam bem, metidas em mercados e igrejinhas lindas de morrer, abancadas em lugares risonhos onde nos serviam cabrito assado com grelos salteados, ou papas de serrabulho, ou bacalhaus de antologia, tudo regado a verde tinto bebido por malgas de loiça. Porque a Rosa se me tinha queixado que andava em baixo, com “uma gastura no estâmado que tu nem queiras saber”, e eu levei-a ao médico que diagnosticou cansaço e receitou descanso, passeata, e “coma-lhe e beba-lhe, Tia Rosa”. Para encurtar razões, aviámos a receita.

Num dia em que regressámos da passeata, havia uma encomenda à espera da Rosa: pessoa de bom estatuto, em Viana do Castelo, pedia por tudo que lhe fizesse uma Última Ceia para levar de oferta no estrangeiro. Essas ceias feitas pela Rosa eram rectangulares, em barro verde, constando de uma mesa comprida, Jesus ao meio e os discípulos distribuídos à esquerda e à direita. À frente de Nosso Senhor, um prato com um peixe, um pão e um cálice. À frente dos outros, um pãozinho muito redondinho. A artista, que era pequenina, sentou-se num banquinho, frente a uma banca de trabalho, e ali ficou a modelar figura por figura, sempre a cantarolar. Eu, muda, extasiada, comovida, porque, para mim, o acto da criação artística é um momento em que se tocam os dedos de Deus e do artista. Mas quando a Rosa deu por terminado o trabalho, reparei que havia um discípulo sem pãozinho. Solícita, e estúpida, chamei a atenção da Rosa. E ela, a cravar em mim aqueles belos olhos negros cheios de força, espantou-se: “Tu julgas-me capaz de pôr pão ao filho da p. do Judas?”. Fiquei transida de admiração perante aquele desamor fundo como uma raíz, igualzinho ao de outro minhoto e querido amigo, o escritor Tomás de Figueiredo, de quem o David Mourão Ferreira às vezes me dizia “ah, que ódio aquele, tão saudável”. Agora parece que se diz tão assumido...

E não é que, nesta Páscoa de 2006, tem sido uma badalação mediática à escala planetária por causa de uns papiros datados de 400 anos após a morte de Cristo na cruz, segundo os quais Judas teria sido um sujeito óptimo e até parceiro de Jesus nisso de ajeitaram factos às profecias? Tem sido uma algazarra, mesmo antes de se saber, de ciência certa, se vale a pena perder tempo com o achado.

Nunca pensei que o Judas tivesse tantos amigos dispostos a, mais uma vez, atacarem a Igreja. Olha bem para isto, Rosa!